Há edifícios que você visita e há edifícios que você experimenta. A Filarmônica de Berlim, a Berliner Philharmonie como os berlinenses chamam, pertence definitivamente à segunda categoria. Antes mesmo de entrar, algo na sua forma irregular, nas suas coberturas em zigue-zague, no modo como o volume parece crescer do chão sem hierarquia aparente, já avisa que você está diante de algo diferente.
Inaugurada em 1963, ela é a obra-prima de Hans Scharoun, um arquiteto que passou boa parte da vida à margem do reconhecimento internacional e que, com esse projeto, mudou para sempre a forma como o mundo constrói salas de concerto.
Uma ideia radical: a música no centro
Antes de Scharoun, a lógica das salas de concerto era simples e inquestionável: palco na frente, plateia atrás. O músico performa, o público assiste. Uma relação de palco e audiência herdada do teatro, que colocava inevitavelmente parte do público numa posição menos nobre, acusticamente inferior.
Scharoun quis acabar com isso. Sua ideia central era que a música deveria ser o ponto focal, literalmente. Ele dispôs as cadeiras em blocos irregulares ao redor da orquestra, como terraços em encosta, de modo que nenhum espectador ficasse exatamente atrás dos músicos. Todos em torno. Todos igualmente próximos do som.
“Não quero uma sala de concerto que pareça uma caixa de sapatos. Quero uma paisagem de vales e colinas, onde a música nasce do centro como uma fonte.”
Essa frase, atribuída ao próprio Scharoun durante o projeto, resume tudo. A Filarmônica não foi pensada como um container para a música: foi pensada como parte da própria música.
Construída à sombra do Muro
O contexto histórico do edifício é tão fascinante quanto a sua arquitetura. A Filarmônica foi erguida no início dos anos 1960, em pleno coração da Guerra Fria, e sua localização não foi aleatória: fica no bairro da Kulturforum, próxima ao que era então a fronteira entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental, poucos passos do Muro.
A decisão de construir um dos mais importantes equipamentos culturais do mundo naquele ponto específico foi um gesto político deliberado. A Alemanha Ocidental queria dizer ao mundo e ao bloco soviético que a cultura florescia do lado de cá. A Filarmônica era, ao mesmo tempo, uma sala de concerto e uma declaração de intenções.
Quando o Muro caiu, em 1989, o edifício de repente deixou de ser o fim da cidade para se tornar o centro de uma Berlim reunificada. Essa transformação geográfica e simbólica diz muito sobre como a arquitetura carrega tempo.
O que ver quando você visita
A Filarmônica fica na Herbert-von-Karajan-Straße, no bairro de Tiergarten. Você pode visitar o foyer sem comprar ingresso para um concerto e vale muito a pena. Os espaços internos têm aquele caráter labiríntico e orgânico que Scharoun adorava: corredores que se abrem inesperadamente, escadas que levam a patamares com vistas inusitadas, uma sensação constante de que o espaço está em movimento.
Mas a experiência completa, claro, é assistir a um concerto. A Berliner Philharmoniker, a orquestra que habita esse edifício, é uma das mais importantes do mundo. E o som dentro da sala, graças à acústica projetada com obsessão por Scharoun e pelo acústico Lothar Cremer, é simplesmente extraordinário. Cada lugar na plateia recebe o som de um ângulo diferente, mas com a mesma riqueza.
Hans Scharoun, o arquiteto que Berlim guardou
É curioso que Hans Scharoun seja pouco conhecido fora dos círculos de arquitetura, especialmente para quem visita Berlim. Nascido em Bremen em 1893, ele sobreviveu ao nazismo ficando em silêncio: não emigrou, não colaborou, simplesmente parou de construir. Dedicou esses anos a desenhar projetos utópicos que nunca saíram do papel, como uma forma de resistência silenciosa.
Com o fim da guerra, voltou ao trabalho e se tornou uma das figuras centrais da reconstrução de Berlim. Mas é na Filarmônica que seu pensamento encontra expressão máxima. Um edifício que parece ter crescido de dentro para fora, guiado não por regras formais, mas por uma ideia musical sobre como as pessoas deveriam estar juntas no espaço.
Se Marlene Dietrich foi a mulher que Berlim não soube guardar, Scharoun foi o arquiteto que Berlim guardou e que deixou sua marca mais permanente não em palavras ou imagens, mas em concreto, aço e som.
Quer visitar? Berliner Philharmonie — Herbert-von-Karajan-Straße 1, 10785 Berlin. O foyer é aberto ao público. Ingressos para concertos em berliner-philharmoniker.de.


